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13/11/2019

Ângelo Rabelo: "O fogo nosso de cada dia"

No meio das cinzas, devemos ter a obrigação de encontrar as respostas sobre o que aconteceu e como evitar novos desastres, afinal, todos perdem.

As áreas que queimaram em escala assustadora são aquelas que não foram manejadas com fogo nos últimos 25 anos. Todos os estudos – a Ciência e a sabedoria do Pantaneiro – demonstram  que o uso do fogo é uma necessidade. Deve ser sempre de forma planejada: permite eliminar matéria orgânica, sabemos que evita prejuízos e faz bem, caso manejado corretamente, para a própria fauna. Outro fator relevante foi que perdemos no Pantanal, nos últimos 30 anos, dois terços do nosso principal bombeiro – o boi. 

A redução do rebanho foi significativa e nenhuma política veio ao encontro dessa realidade. Esse fato contribuiu para a formação de grandes áreas fechadas pela macega e espinhos que são, o que ficou evidente nos últimos dias, uma bomba incendiária. Por que paramos de queimar? Pelo radicalismo e falta de uma política educativa que permitisse ao pecuarista o conforto jurídico e orientação de como e quando fazer. Na inexistência, paira o medo. Na incapacidade de identificar a origem do fogo e culpados, a política de multar a todos sem critérios é de um reducionismo atroz e contribui para o desastre socioambiental. Outro aspecto importante é a responsabilidade do proprietário das grandes propriedades que deverão se preparar e ter seus equipamentos básicos de combate, como: abafadores, bomba costal e uma pipa para fazer o primeiro enfrentamento. O Previfogo e o Corpo de Bombeiros, a despeito de seus esforços meritórios, devem reconhecer suas limitações e investir em capacitação na área rural, criando pequenas brigadas que reúnam empregados das fazendas e, de forma organizada, combater o bom combate.

Admitir que, se o Estado um dia foi o guardião de tudo e todos e com sua grande estrutura chegava em todos os lugares, esse tempo não existe mais. Hoje ele deve focar seu pouco efetivo de combate ao fogo nas áreas protegidas e nas situações que ofereçam risco às comunidades e pessoas. Se não for pela Ciência, para os descrentes as evidências das mudanças climáticas são uma realidade. Para os desconfiados, devem, como todo bom pantaneiro, prestar atenção nos sinais da natureza, que se manifesta de forma clara. Dizia nosso poeta maior, Manoel de Barros: “Sou muito preparado de conflitos”.

Fonte: https://www.correiodoestado.com.br/opiniao/angelo-rabelo-o-fogo-nosso-de-cada-dia/363498/

 
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